segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Se caráter custa caro, pago o preço

Parar, não paro. 

Esquecer,
esquecer não esqueço.
Se caráter custa caro,
pago o preço.
Pago, embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra
eu comparo à força do arremesso.
 Um rio, só se for claro.
Correr sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro,
não paro, nem mereço.
E que ninguém me dê amparo,
nem me pergunte se padeço.
Não sou, nem serei avaro.
Se caráter custa caro,
pago o preço.

Sidónio Muralha

CIENCIAS NATURAIS E MÉDICAS – A Civilização árabe (1884)



CIENCIAS NATURAIS E MÉDICAS
CIÊNCIAS NATURAIS

( Estava lendo um artigo muito bom sobre os árabes e decidi partilhar com vocês. É  bom conhecermos um pouco mais sobre outras culturas e povos, boa leitura, abraços. Rodrigo Souza)




A historia natural, para os árabes, reduziu-se no principio a comentar aobra de Aristóteles; mas logo eles preferiram estudar os livros, e por isso lhes devemos várias excelentes obras sobre os animais, as plantas, os metais, os fósseis, etc.
Um dos naturalistas árabes mais conhecidos é Kazwiny, falecido em 1283, apelidado o Plínio dos orientais; suas obras consistem especialmente em descrições do gênero das de Buffon.
Fig. 244 — Entrada de uma das salas da Universidade de El Azhar, no Cairo (Ebers).
Entrada de uma das salas da
 Universidade de El Azhar, no Cairo (Ebers).
Os árabes não conheceram as grandes generalizações, nem classificações análogas às dos modernos, não obstante se encontrarem naqueles livros passagens onde eles parecem ter pressentido algumas das mais importante descobertas da ciência atual. Vemos assim que no tratado das pedras escrito por Avicena há um capítulo sobre a origem das montanhas discrepando muito pouco do que hoje se ensina, como se poderá .comprovar peles parágrafos seguintes:
"As montanhas podem provir de duas causas: ou são efeito do levantamento da crosta terrestre, como sucede num violento terremoto, ou são efeito da água, a qual, abrindo novos caminhos formou os vales, ao mesmo tempo que produziu as montanhas. Havendo rochas moles e rochas duras, a água e o vento arrastam as primeiras, ao passo que deixam as outras intactas, sendo essa a origem da maior parte das eminências terrestres.

"Os minerais têm a mesma origem das montanhas, sendo necessários muitos períodos de tempo para que se verifiquem essas mudanças. Talvez as montanhas comecem agora a diminuir."
O autor chega a alegar provas em apoio do que acaba de expor, pois "com efeito — diz êle, — a prova de que nisso a água foi o agente principal está em que em muitas rochas se vê a estampa de animais aquáticos e de outro gênero; com respeito à matéria terrosa e amarela que cobre a superfície das montanhas, ela não tem a mesma origem que o esqueleto destas, antes procede da desorganização dos restos de ervas e limo trazidos pela água, ou talvez do antigo limo do mar que cobria antes toda a terra".
A idéia de que as profundíssimas transformações do globo, longe de resultarem de grandes cataclismos, segundo acreditava Cuvier, resultam apenas de mudanças lentíssimas, acumuladas durante séculos, como o prova a geologia atual, acha-se claramente indicada na passagem anterior.
A noção das transformações da superfície terrestre em conseqüência da mudança de situação dos mares e de alterações na configuração do solo, estava tão generalizada entre os sábios árabes que já havia penetrado nas massas populares.
Assim o indica a seguinte alegoria, tirada de uma obra do naturalista Kazwiny, de quem falamos há pouco.
"Certo dia, disse Rhidz (um gênio), passava eu por uma cidade muito antiga. — Sabes quando foi fundada esta cidade? — perguntei a um de seus habitantes. — Oh! não o sabemos, e nossos antepassados também o não souberam".
"Mil anos depois, passando pelo mesmo local, debalde procurei a cidade que ali deixara e me havia chamado a atenção, mas em vez dela encontrei apenas vegetais cobrindo a superfície e um pastor que recolhia erva.
"— Sabes — perguntei-lhe, — como foi destruída a cidade que antigamente existiu no próprio sítio onde te encontras? — Ora, que pergunta! esta terra sempre foi como agora a estamos vendo".
"Decorreram mais mil anos, e tornando a passar por aquele mesmo local, avistei um imenso lago, um mar, e na sua praia um grupo de pescadores aos quais perguntei desde quando o mar se estendera até ali. Ao que eles responderam: "Será possível que um homem da sua aparência faça semelhante pergunta? Este lago sempre aqui existiu".
Os naturalistas árabes dedicaram-se também ao estudo da botânica, especialmente em suas aplicações à medicina, e possuíam jardins botânicos onde se cultivavam certas plantas raras e curiosas. No século X Granada já tinha um, magnífico, e Abderraman I não só teve outro perto de Córdova como enviou naturalistas à Síria e outras regiões asiáticas com a fim de lhe trazerem as plantas mais raras.
II

CIÊNCIAS MÉDICAS

A medicina, a astronomia, as matemáticas e a química são as ciências que os árabes cultivaram com preferência, bem como aquelas em que mais importantes progressos realizaram; suas obras de medicina, por terem sido traduzidas em toda a Europa, salvaram-se da destruição que atingiu seus demais livros.
Obras de medicina dos árabes. — São tão numerosos os autores árabes que escreveram sobre medicina que Abu Us buaah lhes dedica um volume completo de sua biografia, de modo que nos limitaremos a citar alguns dos mais conhecidos.
A medicina estava mais adiantada entre os gregos que as outras ciências, motivo pelo qual os árabes encontraram em
seus livros dados preciosos. A primeira tradução dos livros gregos foi feita por Aarão em 685, e sua coleção publicada sob o título de Pandectas é um extrato dos antigos livros de medicina, sobretudo de Galeno; após esta vieram logo as traduções dos livros de Hipócrates, Paulo de Egina e outros.
Um dos mais famosos médicos árabes foi Arrazi, que já citamos como químico. Nasceu em Bagdad em 850 pouco mais ou menos, morreu em 932, e professou a medicina nesta capital durante cinqüenta anos. Este médico submeteu a uma rígida crítica, junto ao leito dos enfermos, todos os trabalhos de seus antecessores, e os tratados que compôs sobre a varíola, a escarlatina e outras febres eruptivas foram consultados durante muito tempo. Possuía extensos conhecimentos anatômicos, e compôs sobre as enfermidades das crianças um livro que foi o primeiro a tratar da matéria. Vê-se por suas obras que empregava agentes terapêuticos novos, como a água fria nas febres contínuas, remédio que há pouco tornou a entrar em moda; empregava também o1 álcool, a sedela, as ventosas na apoplexia, etc. Arrazi foi um observador tão atento e engenhoso como modesto, e conta-se que tendo certo indivíduo caído sem sentidos nas ruas de Córdova, apesar de todos os circunstantes o darem por morto, conseguiu salvá-lo mandando que lhe vergastassem todo o corpo com chibatadas, especialmente na planta dos pés. Como o califa o felicitasse por essa cura, dizendo-lhe que fazia ressuscitar os mortos, respondeu que vira no deserto empregar esse recurso com um árabe, e que todo o mérito de sua cura residia em ter observado que o mal do novo enfermo era exatamente igual ao do primeiro. A história não diz qual era esse mal, mas certos pormenores do relato parecem indicar que se trataria de uma insolação.
Jóias e pedras gravadas árabes. (Museu Espanhol de Antigüidades).
 Jóias e pedras gravadas
árabes. (Museu Espanhol de
 Antigüidades).
As mais conhecidas obras de Arrazi, são: O continente, chamado assim por conter todo um corpo de medicina prática, eAlmansuri, do nome do príncipe Almansur a quem o dedicou. Este último divide-se em dez livros: 1.° a Anatomia; 2.° os Temperamentos; 3.° os Alimentos e Medicamentos; 4.° .a Higiene; 5.° a Cosmética; 6.° o Regimen de viagem; 7.° a Cirurgia; 8.° os Venenos; 9.° as Enfermidades em geral e 10.° a Febre.
Quase todas as obras de Arrazi foram traduzidas para o latim e impressas várias vezes, especialmente em Viena em 1509, e em Paris em 1528 e 1548. Seu tratado da varíola reim-primiu-se ainda em 1745. As lições de medicina que durante muitos séculos foram dadas nas principais universidades da Europa versavam sobre seus livros, os quais no século XVII compunham ainda, juntamente com os de Avicena, o texto seguido na universidade de Lovaina, segundo informa o regulamento da mesma, parecendo poder-se deduzir daí que apenas se prescreviam os aforismos de Hipócrates e o Ars parva de Galeno.
Referem os historiadores árabes que Arrazi perdeu a vista na velhice, em conseqüência de catarata e recusou deixar-se operar dizendo: "Vi tanto mundo e fiquei tão desgostoso dele, que não quero tornar mais a vê-lo".
Entre os médicos quase contemporâneos deste cumpre citar ainda Ali-Abbas, que vivia nos fins do século X e deixou, com o título de Malki, um livro onde está exposta a medicina* teórica e prática. O autor procura dar a entender que recolheu suas observações não-em livros mas em hospitais, e embora adote os princípios da medicina grega assinala numerosos erros de Hipócrates, Galeno, Oribase, Paulo de Egina, etc, afastando-se freqüentemente deles, sobretudo no modo de tratar as enfermidades. Estêvão de Antioquia traduziu esse livro em 1127, e o manuscrito foi impresso em Lião em 1523.
O mais célebre médico árabe foi Avicena, cuja influência se exerceu durante muitos séculos e a quem chamaram o príncipe da medicina. Nasceu em 980 e morreu em 1037. Começou sendo arrecadador de contribuições, chegou à posição de vizir, e embora morresse relativamente jovem em conseqüência de excessos de trabalho e de prazeres, suas obras são consideráveis. Seu principal livro de medicina, intitulado Canon, ou regra, compreende a fisiologia, a higiene, a patologia, terapêutica e a matéria médica, descrevendo as enfermidades’ muito melhor que os autores anteriores.
As obras de Avicena foram traduzidas para a maioria das línguas do mundo, serviram durante 600 anos de código universal da medicina, constituíram a base de estudos médicos nas universidades de França e da Itália, foram reimpressas até ao século XVIII e só há uns cinqüenta anos deixaram de ser comentadas na Escola de Medicina de Montpellier.
Avicena era tão afeiçoado aos prazeres como à ciência, e seus excessos, como já dissemos, abreviaram-lhe a existência; por isso se diz que nem sua filosofia, apesar de tão grande, lhe inspirou cordura, nem sua ciência médica, apesar de assombrosa, conseguiu dar-lhe a saúde.
O mais famoso cirurgião árabe foi Abulkassim de Córdova, morto em 1107, inventor de muitos instrumentos da sua arte cujos desenhos figuram em suas obras; entre outros descreveu a litotricia, considerada sem razão uma invenção moderna.
Abulkassim não foi conhecido na Europa até ao século XV, mas então sua influência chegou a ser imensa. O grande filósofo Haller observa "que suas obras foram a fonte comum onde beberam todos os cirurgiões posteriores ao século XVI".
A parte da grande obra de Abulkassim dedicada à cirurgia divide-se em três livros: o 1.° inclui o uso do cautério atual, o 2.° as operações feitas com a faca, a cirurgia dental e ocular, as quebraduras ou hérnias, os partos e a extração da pedra e o 3.° é dedicado às fraturas e deslocações. Embora a classificação seja defeituosa, os dados práticos são muito preciosos.
Os trabalhos médicos de Abulkassim foram primeiro impressos em latim em 1497, sendo sua última edição muito recente, uma vez que data de 1861.
Apesar de menos famoso que o anterior, Ibn Zohar de Sevilha, que vivia no século VII, desfruta ainda de grande reputação. Foi experimentador e reformador, simplificou a antiga terapêutica e provou que a natureza, considerada uma força interior, basta só por si para curar as doenças. Malgrado as preocupações juntou o estudo da medicina ao da cirurgia e da farmácia, e sua cirurgia contém dados muito preci-jsos em matéria de deslocações e fraturas.
Decoração polícroma de um pavilhão de Alhambra de Granada.
Decoração polícroma de um pavilhão
de Alhambra de Granada. (Espanha)
Averróes, nascido em Córdova em 1128 e falecido em 1188, escreveu também sobre medicina; porém, embora muito mais conhecido como filósofo e comentador de Aristóteles do que como médico (*), deixou-nos alguns comentários sobre Avicena, um tratado sobre a triaga, um livro sobre os venenos, as febres, etc. Seus livros de medicina foram várias vezes reimpressos na Europa.
Higiene dos árabes. — Estes não desconheceram a importância dela, pois sabiam muito bem que a higiene nos ensina os meios de evitarmos as doenças que a medicina não sabe curar. As prescrições contidas no Corão, como por exemplo freqüência das abluções, proibição do vinho e preferência dada nos países quentes ao regime vegetal sobre o animal, são muito razoáveis, nada havendo que censurar nas recomendações higiênicas atribuídas ao Profeta.
Os autores árabes emitem com freqüência suas prescrições higiênicas em forma aforística que as torna fáceis de recordar; entre outras encontramos a seguinte indicação de um médico árabe do século XI: "Nada pior para um velho que mulher moça e cozinheiro hábil".
Parece que os hospitais árabes eram construídos em condições higiênicas muito superiores às dos nossos estabelecimentos modernos. Edificavam-nos enormes, e faziam circular abundantemente por eles o ar e a água. Tendo Arrazi sido encarregado de escolher o bairro mais saudável de Bagdad para se construir um hospital, empregou o seguinte meio que hoje não recusariam os partidários das teorias modernas sobre os micróbios: pendurou uns pedaços de carne em diversos bairros da cidade e declarou mais saudável aquele onde a carne levou mais tempo a decompor-se.
(1) Em todas as citações de autores árabes que fazemos nesta obra, reproduzimos os nomes tais como os alteraram as traduções latinas e o uso consagrou, ainda que nenhum se pareça com o nome original. Desse modo, Averroes chamava-se realmente Abul Walid Muhammad ibn Roshd. O nome de Avicena era Abu Ali Hassan ibn Abdillah ibn Sina. O mesmo acontece com os da maioria dos califas. Um livro onde se ortografassem exatamente os nomes árabes, seria ilegível para a imensa maioria do público.
Os hospitais árabes eram, como os modernos da Europa, asilos para os enfermos e lugares de ensino para os estudantes, os quais seguiam a carreira muito mais ao pé dos leitos dos doentes que no comércio dos livros, coisa bem pouco imitada pelas universidades cristãs da Idade Média, não obstante ser um ponto fundamental. Havia também reservados para certas categorias, em especial para os loucos. Existiam além disso, como entre nós, postos de socorro onde os enfermos podiam receber consultas gratuitas em certos dias da semana. Às povoações demasiado pequenas para terem um hospital, eram periodicamente enviados alguns médicos providos de remédios.
Os árabes conheciam perfeitamente a influência higiênica do clima; Averroes, em seus comentários a Avicena, preconiza como se faz hoje a mudança de clima para a tísica, indicando a Arábia e a Núbia como estações invernais. Justamente, ainda hoje se enviam muitas vezes para as regiões do Nilo próximas da Núbia as pessoas atacadas dessa enfermidade.
Os aforismos da escola de Salerno contém numerosas prescrições higiênicas inapreciáveis. Todos sabem que se deve aos árabes a reputação dessa escola, que foi tida como a primeira da Europa. Quando em meados do século XI os normandos se apoderaram da Sicília e de uma parte da Itália ocupadas pelos árabes, concederam às escolas de medicina por estes fundada, proteção igual às das demais instituições muçulmanas. Nessa altura um árabe de Cartago, muito instruído e chamado Constantino o Africano, recebeu o encargo de a dirigir, e tendo esse sábio traduzido para o latim as obras médicas importantes dos árabes, tiraram-se delas os aforismos que por muito tempo deram a Salerno sua alta reputação.
Os árabes tinham imensa confiança na higiene aplicada ao tratamento das doenças, e não consideravam menos os recursos da natureza; desse modo, a medicina preventiva que parece hoje o mais importante da ciência não raciocina de outro modo, parecendo-me além disso muito provável que no século X da nossa era aqueles médicos não perdiam mais doentes do que hoje perdem os nossos.
Progressos realizados pelos árabes nas ciências médicas. — Os mais importantes em medicina referem-se à cirurgia, à descrição das doenças, à matéria médica e à farmacopeia. Os árabes imaginaram grande número de métodos, alguns dos quais, como o emprego da água fria nas febres tifóides, reaparecem agora depois de muitos séculos de esquecimento.
A matéria médica deve-lhes muitos medicamentos, como a polpa da canafístula, o sene, o ruibarbo, o tamarindo, a noz vómica, o quermes, a cânfora, o álcool, etc. Dissemos já que eles foram os verdadeiros criadores da farmácia, pois a maioria dos preparados ainda hoje em uso, como xaropes, emplastros, pomadas, ungüentos, águas destiladas, etc., se devem a eles. Conseguiram também imaginar certos processos de administrar remédios, que depois de caírem em longo esquecimento se vão apresentando agora como coisas nunca sonhadas. Tal é entre outros o de fazer as plantas absorverem primeiro os medicamentos, como fêz Ibn Zohar, que curava os constipados mandando-lhes comer frutas de uma vinha regada com purgantes.
Além disso a cirurgia deve aos árabes progressos fundamentais, tendo suas obras servido de base ao ensino da medicina até uma época muito recente. No século XI eles já conheciam o tratamento da catarata por redução ou extração do cristalino, a litotrícia, claramente descrita por Abulkassim, o tratamento de hemorragias por meio de irrigações de água fria, o emprego dos cáusticos, das sedalhas, da cauterização pelo fogo, etc. A anestesia, considerada uma descoberta capital dos tempos modernos parece que não lhes foi desconhecida, pois eles recomendavam, antes das operações dolorosas, o emprego da cizânia para adormecer o enfermo "até que êle perca todo o conhecimento e sentimento".

domingo, 27 de novembro de 2011

Um poder de costas para o país

 
      Professor Marco Antônio Villa

A Justiça no Brasil vai mal, muito mal. Porém, de acordo com o relatório de atividades do Supremo Tribunal Federal de 2010, tudo vai muito bem. Nas 80 páginas - parte delas em branco - recheadas de fotografias (como uma revista de consultório médico), gráficos coloridos e frases vazias, o leitor fica com a impressão que o STF é um exemplo de eficiência, presteza e defesa da cidadania. Neste terreno de enganos, ficamos sabendo que um dos gabinetes (que tem milhares de processos parados, aguardando encaminhamento) recebeu "pela excelência dos serviços prestados" o certificado ISO 9001. E há até informações futebolísticas: o relatório informa que o ministro Marco Aurélio é flamenguista.
  A leitura do documento é chocante. Descreve até uma diplomacia judiciária para justificar os passeios dos ministros à Europa e aos Estados Unidos. Ou, como prefere o relatório, as viagens possibilitaram "uma proveitosa troca de opiniões sobre o trabalho cotidiano." Custosas, muito custosas, estas trocas de opiniões. Pena que a diplomacia judiciária não é exercida internamente. Pena. Basta citar o assassinato da juíza Patrícia Acioli, de São Gonçalo. Nenhum ministro do STF, muito menos o seu presidente, foi ao velório ou ao enterro. Sequer foi feita uma declaração formal em nome da instituição. Nada. Silêncio absoluto. Por que? E a triste ironia: a juíza foi assassinada em 11 de agosto, data comemorativa do nascimento dos cursos jurídicos no Brasil.
Mas, se o STF se omitiu sobre o cruel assassinato da juíza, o mesmo não o fez quando o assunto foi o aumento salarial do Judiciário. Seu presidente, Cézar Peluso, ocupou seu tempo nas últimas semanas defendendo - como um líder sindical de toga - o abusivo aumento salarial para o Judiciário Federal. Considera ético e moral coagir o Executivo a aumentar as despesas em R$8,3 bilhões.
  A proposta do aumento salarial é um escárnio. É um prêmio à paralisia do STF, onde processos chegam a permanecer décadas sem qualquer decisão. A lentidão decisória do Supremo não pode ser imputada à falta de funcionários. De acordo com os dados disponibilizados, o tribunal tem 1.096 cargos efetivos e mais 578 cargos comissionados. Portanto, são 1.674 funcionários, isto somente para um tribunal com 11 juízes. Mas, também de acordo com dados fornecidos pelo próprio STF, 1.148 postos de trabalho são terceirizados, perfazendo um total de 2.822 funcionários. Assim, o tribunal tem a incrível média de 256 funcionários por ministro. Ficam no ar várias perguntas: como abrigar os quase 3 mil funcionários no prédio-sede e nos anexos? Cabe todo mundo? Ou será preciso aumentar os salários com algum adicional de insalubridade?
Causa estupor o número de seguranças entre os funcionários terceirizados. São 435! O leitor não se enganou: são 435. Nem na Casa Branca tem tanto segurança. Será que o STF está sendo ameaçado e não sabemos? Parte destes vigilantes é de seguranças pessoais de ministros. Só Cézar Peluso tem 9 homens para protegê-lo em São Paulo (fora os de Brasília). Não é uma exceção: Ricardo Lewandovski tem 8 exercendo a mesma função em São Paulo.
Mas os números continuam impressionando. Somente entre as funcionárias terceirizadas, estão registradas 239 recepcionistas. Com toda a certeza, é o tribunal que melhor recebe as pessoas em todo mundo. Será que são necessárias mais de duas centenas de recepcionistas para o STF cumprir suas tarefas rotineiras? Não é mais um abuso? Ah, abuso é que não falta naquela Corte. Só de assistência médica e odontológica o tribunal gastou em 2010, R$16 milhões. O orçamento total do STF foi de R$518 milhões, dos quais R$315 milhões somente para o pagamento de salários.
  Falando em relatório, chama a atenção o número de fotografias onde está presente Cézar Peluso. No momento da leitura recordei o comentário de Nélson Rodrigues sobre Pedro Bloch. O motivo foi uma entrevista para a revista "Manchete". O maior teatrólogo brasileiro ironizou o colega: "Ninguém ama tanto Pedro Bloch como o próprio Pedro Bloch." Peluso é o Bloch da vez. Deve gostar muito de si mesmo. São 12 fotos, parte delas de página inteira. Os outros ministros aparecem em uma ou duas fotos. Ele, não. Reservou para si uma dúzia de fotos, a última cercado por crianças. A egolatria chega ao ponto de, ao apresentar a página do STF na intranet, também ter reproduzida uma foto sua acompanhada de uma frase (irônica?) destacando que o "a experiência do Judiciário brasileiro tem importância mundial".
No relatório já citado, o ministro Peluso escreveu algumas linhas, logo na introdução, explicando a importância das atividades do tribunal. E concluiu, numa linguagem confusa, que "a sociedade confia na Corte Suprema de seu País. Fazer melhor, a cada dia, ainda que em pequenos mas significativos passos, é nossa responsabilidade, nosso dever e nosso empenho permanente". Se Bussunda estivesse vivo poderia retrucar com aquele bordão inesquecível: "Fala sério, ministro!"
  As mazelas do STF têm raízes na crise das instituições da jovem democracia brasileira. Se os três Poderes da República têm sérios problemas de funcionamento, é inegável que o Judiciário é o pior deles. E deveria ser o mais importante. Ninguém entende o seu funcionamento. É lento e caro. Seus membros buscam privilégios, e não a austeridade. Confundem independência entre os poderes com autonomia para fazer o que bem entendem. Estão de costas para o país. No fundo, desprezam as insistentes cobranças por justiça. Consideram uma intromissão.
 
*Fonte:Marco Antonio Villa  - O Globo - 27/09/2011 

Após casos similares, funcionária da Foxconn comete suicídio na China

  Uma funcionária da gigante taiuanês Foxconn, que fabrica na China o iPad e
o iPhone da Apple, se suicidou ao se jogar de um prédio da empresa,
disseram policiais citados nesta sexta-feira (25) pela agência de notícias
oficial "Xinhua", que desde 2010 já noticiou cerca de 20 casos similares.
  Como na maioria dos casos anteriores, Li Rongying era muito jovem, tinha
20 anos. Dessa vez o caso não ocorreu nas enormes instalações da Foxconn
em Shenzhen, onde trabalham 400 mil funcionários, mas na fábrica da cidade
de Taiyuan, no norte do país. A polícia informou que a jovem deixou uma
mensagem na qual justifica o suicídio por um desengano amoroso. A família
de Li pediu que seja realizada uma autópsia no corpo dela.
  A Foxconn, maior fabricante mundial de componentes eletrônicos, fornece
material para grande parte das multinacionais tecnológicas, incluindo
Sony, Nokia, Dell, Nintendo e Apple. A companhia emprega 1,2 milhão de
pessoas, das quais 1 milhão trabalham nas fábricas chinesas, onde as
condições de trabalho vêm sendo questionadas desde 2010 devido à onda de
suicídios de jovens funcionários.
  Na semana passada o presidente e fundador da companhia, Terry Gou, visitou
as fábricas da empresa em Shenzhen, onde prometeu que não haverá demissões
em massa na China em 2012, apesar da introdução de 1 milhão de robôs em
suas linhas de montagem nos próximos três anos.
                                                                            *Fonte: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2011/11/25/mais-uma-funcionaria-da-foxconn-comete-suicidio-na-china.jhtm

Morte de operário na SADIA

  Operário perde a vida em Acidente de Trabalho na Sadia
Aconteceu na madrugada desta sexta-feira (25/11/11) na unidade da Sadia de
Toledo Paraná, mais um acidente de trabalho fatal. Segundo as primeiras
informações, aconteceu no Elevador do setor de rações.
  A vitima foi o jovem operário Alam Junior Ramos da Silva de 20 nos de idade.
Já é o segundo acidente fatal com o Elevador nesta mesma unidade.
  A Procuradoria do Trabalho já foi acionada e certamente, como sempre faz
nestes casos, irá acompanhar de perto a investigação do acidente de
trabalho e tomar s medidas cabíveis para o caso.
  A AP-LER também irá acompanhar os resultados destas investigações.
Esperamos que os responsáveis sejam punidos exemplarmente e que se
promovam modificações da situação geradora do acidente de trabalho para
impedir novos vitimas.
  A diretoria da AP-LER enlutada com mais este trágico acidente se
solidariza com a família órfã, enquanto mantemos o nosso firme propósito
de impor a referida empresa a modificação desta condições de trabalho
desumanas que vitimam diariamente seus trabalhadores.
  Dia 30 de novembro, nesta segunda-feira no Fórum Trabalhista da cidade de
Toledo teremos mais uma audiência da Ação Civil Pública que o Ministério
Público do Trabalho e a AP-LER movem contra a Sadia.
  Nas audiências anteriores e em reuniões de conciliação entre as partes
envolvidas, já foi possível acordar algumas de nossas reivindicações.
Porem as que faltam e que são as mais importantes, por que podem inclusive
merecer tutela antecipada, só serão julgadas agora.
  Estamos confiantes e acreditamos que possamos obter do Poder Judiciário,
através deste julgamento uma sentença capaz de garantir a vida e a saúde
de todos os trabalhadores da Sadia de Toledo.
PS: é do Blog da AP-LER, onde tem outras notícias

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Ao invés de punição, promoção

Sabemos que até hoje ninguém foi punido pelo Massacre do Carandiru, quando, segundo o número oficial, 111 detentos foram covardemente executados pela PM (há relatos de que muito mais presos foram assassinados quando a policia invadiu a Casa de Detenção, em 1992). Ao contrário, muitos foram beneficiados por terem promovido esse Massacre; por exemplo, o comandante da invasão, conhecido como Coronel Ubiratan, foi eleito deputado estadual com o número 14111, usando as execuções como estratégia de marketing.
Esse tipo de infâmia se repete hoje, quando o tenente-coronel Salvador Modesto Madia é nomeado comandante da Rota (conhecida por sua truculência, por promover chacinas, etc.). Depois da nomeação, repórteres o procuraram, perguntando sobre o envolvimento dele no Massacre, e receberam a singela resposta: tal “episódio” foi o “resultado de um confronto entre detentos e policiais”, e que apenas “cumprimos o nosso dever”.
De fato, com a promoção do PM ao cargo de comandante da Rota, o governo do Estado de São Paulo dá uma demonstração evidente de que é “dever” da Polícia promover massacres. O que, aliás, os policiais têm feito muito bem, com o apoio não só do Executivo, mas também do Judiciário.
Mas antes as coisas assim, escancaradas, do que a falsa imagem de uma polícia boazinha, amistosa, que alguns cínicos tentam vender, e muitos acabam abraçando.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O MAIOR DESAFIO

Cada um de nós tem desafios diferentes. A vida é feita de desafios diários.
Para quem não dispõe de movimentos nas pernas, transportar-se da cama para a cadeira de rodas, a cada manhã, é um desafio.
Para quem sofreu um acidente e está re-aprendendo a andar, o desafio está em apoiar-se nas barras, na sala de reabilitação, e tentar mover um pé, depois o outro.
Para quem perdeu a visão, o grande desafio é adaptar-se à nova realidade, aprendendo a ouvir, a tatear, a movimentar-se entre os obstáculos sem esbarrar. É aprender um novo alfabeto, é ler com os dedos, é adquirir nova independência de movimentos e ação.
Para o analfabeto adulto, o maior desafio é dominar aqueles sinais que significam letras, que colocados uns ao lado dos outros formam palavras, que formam frases.
É conseguir tomar o lápis e escrever o próprio nome, em letras de forma. É conseguir ler o letreiro do ônibus, identificando aquele que deverá utilizar para chegar ao seu lar.
Cada qual, dentro de sua realidade, de sua vivência, apontará o que lhe constitui o maior desafio: dominar a técnica da pintura, da escultura, da música, da dança.
Ser um ás no esporte. Ser o primeiro da classe. Passar no vestibular. Ser aprovado no concurso que lhe garantirá um emprego. Ser aceito pela sociedade. Ser amado.
Para vencer um desafio é preciso ter disciplina, ser persistente, ser diplomático, saber perdoar-se e perdoar aos outros.
É ser otimista quando os demais estão pessimistas. Ser realista quando os demais estão com os pensamentos na lua. É saber sonhar e ir em frente.
É persistir, mesmo quando ninguém consiga nos imaginar como um prêmio Nobel de Química, um pai de família, um professor, prefeito ou programador.
Acima de tudo, o maior desafio para deficientes, negros e brancos, japoneses e americanos, brasileiros e argentinos, para todo ser humano, é fazer.
Fazer o que promete. Dar o primeiro passo, o segundo e o terceiro. Ir em frente.
Com que freqüência se escutam pessoas dizendo que vão fazer regime, que vão estudar mais, que vão fazer exercício todo dia, que vão ler mais, que vão assistir menos televisão, que vão…
Falar, reclamar ou criticar são os passatempos mais populares do mundo, perdendo só, talvez, para o passatempo de culpar os outros pelo que lhe acontece.
Então, o maior desafio é fazer. E não adianta você dizer que não deu certo o que pretendia porque é cego, ou porque é negro, ou porque é amarelo, ou porque você é brasileiro. Ou porque mora numa casa amarela. Ou porque não teve tempo.
Aprenda com seus erros. Quando algo não der certo, você pode tentar de maneira diferente. Agora você já sabe que daquele jeito não dá.
Você pode treinar mais. Você pode conseguir ajuda, pode estudar mais, pode se inspirar com sábios amigos. Ou com amigos dos seus amigos.
Pode tentar novas idéias. Pode dividir seu objetivo em várias etapas e tentar uma de cada vez, em vez de tentar tudo de uma vez só.
Você pode fazer o que quiser. Só não pode é sentir pena de si mesmo. Você não pode desistir de seus sonhos.
Problemas são desafios. Dificuldades são testes de promoção espiritual.
Insucesso é ocorrência perfeitamente natural, que acontece a toda e qualquer criatura.
Indispensável manter o bom ânimo em qualquer lugar e posição.
O pior que pode acontecer a alguém é se entregar ao desânimo, apagando a chama íntima da fé e caminhar em plena escuridão.
Assim, confia em Deus, e, com coragem, prossegue de espírito tranqüilo.

Valor Econômico

Carlos Lessa
Sou de uma geração treinada em ler nas entrelinhas. Vivi as longas décadas de regimes ditatoriais latino-americanos e aprendi a pesquisar as intenções nos discursos oficiais. O dr. Ulysses Guimarães me ensinou que se deve prestar atenção aos silêncios nos discursos.
Percebo uma crescente preocupação da presidente Dilma com a China e suas pretensões geopolíticas e geoeconômicas. Na reunião do G-20, a presidente declarou sua preocupação com a ausência de compras chinesas de produtos industriais brasileiros (leia-se, nas entrelinhas, que o Brasil é exportador de alimentos e matérias-primas sem processamento: soja em grão, minério de ferro bruto, couro de vaca sem curtição etc). Em passado relativamente recente, exportamos geradores para a grande usina do Rio Amarelo; agora, estamos importando geradores da China. Vendemos aviões da Embraer. Bobamente, aceitamos instalar uma filial na China; os chineses clonaram a fábrica da Embraer e, hoje, competem com o avião brasileiro no mercado mundial. Esta semana, a presidência declarou sua preocupação com a tendência chinesa à aquisição de grandes glebas agrícolas no Brasil. A percepção presidencial não resolve o problema das relações Brasil-China, porém já é meio caminho andado que o poder executivo nacional tenha aquelas dimensões presentes.
O enigma chinês é fácil decifrar. O Brasil cresceu, de 1930 a 1980, 7% ao ano. Depois dessas décadas, mergulhamos na mediocridade e patinamos com uma taxa média ridícula de 2,5%. A China, nas últimas décadas, vem crescendo anualmente entre 9% e 10%. Entretanto, está em situação potencialmente pior que o Brasil. Hoje, mais de 80% da população brasileira está em áreas urbanas e 50% em metropolitanas e nem chegamos aos 200 milhões de habitantes. A China tem uma população de 1,34 bilhão, sendo que menos de 50% estão na área urbana. Como a renda média do chinês rural é um terço da do chinês urbano, é inexorável uma transferência equivalente a duas vezes a população brasileira para as cidades chinesas, nos próximos 20 anos. É fácil entender o sonho de urbanização do chinês rural. A periferia urbana das cidades chinesas já está "favelizada".
Estratégia da China combina aspectos da Inglaterra vitoriana com primazia do Japão científico-tecnológico
Sabemos que o Brasil tem uma péssima distribuição de renda e riqueza. Houve uma melhoria da participação dos salários na renda nacional, que evoluiu, desde 2000, de 34% para 39%. A elevação do poder de compra dos salários foi importante, entretanto o leque salarial se tornou mais desigual e houve pouca geração de empregos de boa qualidade. O salário médio brasileiro é muito baixo, entretanto é, por mês, igual ao limite de pobreza chinês ao ano (cerca de €150), isto é, o brasileiro pobre ganha 12 vezes mais que o chinês pobre. Nosso governo fala de uma "nova classe média" e esconde que o lucro real dos grandes bancos brasileiros cresceu 11% por ano no período FHC e 14% durante os dois mandatos do presidente Lula. Enquanto os colossais bancos chineses têm uma rentabilidade patrimonial inferior a 10%, os bancos brasileiros chegam a 20%.
É impensável o futuro demográfico chinês. No passado, cada família só podia ter um filho; agora, essa regra está sendo relaxada. A urbanização e a industrialização chinesas já comprometeram o lençol freático da China do Norte. Com restrições de água, e necessitando transferi-la cada vez mais para a sede da indústria e população urbana, a China não produzirá alimentos suficientes. Se o consumo interno da China crescer cada vez mais, haverá falta não só de água, mas também de energia fóssil e hidráulica, além de, obviamente, todo um elenco de matérias-primas.
O planejamento estratégico de longo prazo da China é para valer. O projeto geopolítico e a geoeconômico chinês está transformando a África e parte da Ásia do sudeste em fronteira fornecedora de alimentos e matérias-primas. Em busca de autossuficiência de minério de ferro, a China já está desenvolvendo as enormes reservas do Gabão. A petroleira chinesa já está nas reservas de petróleo de gás do coração da África e a ocupação econômica de Angola é prioridade diplomática e financeira da China. O extremo sul da América Latina é objeto de desejo expansionista chinês, que se propôs a fazer e operar uma nova ferrovia ligando Buenos Aires a Valparaíso, perfurando um túnel mais baixo na Cordilheira dos Andes. O Chile - com pretensão de se converter na "Singapura" do Pacífico Sul - e os interesses agro-exportadores argentinos adoram a ideia. Carne, soja, trigo, madeira, pescado e cobre estarão na periferia da China do futuro. A presidência argentina é relutante em relação a esse projeto, porém o Mercosul está sob o risco de se converter, dinamicamente, em pura retórica.
O Império do Meio, unificado pela dinastia Han (ainda antes de Cristo), atravessou séculos com Estado centralizado e burocracia profissional estruturada. No século XIX, a China balançou pela penetração da Inglaterra vitoriana; enfrentou a perfídia mercantil do ópio controlado pela Índia britânica. Sua república, no século XX, foi ameaçada pela expansão japonesa, e somente após a Segunda Guerra Mundial conseguiu, com o Partido Comunista Chinês (PCC) restaurar a centralidade.
Com um pragmatismo secularmente desenvolvido, a China combinou o Estado hipercontrolador com a "economia de mercado". "Casou" com os EUA e criou um G-2, aonde mais de 3 mil filiais americanas produzem na China e exportam para o mundo (70% das exportações de produtos industriais são de filiais americanas). O superávit comercial chinês é predominantemente aplicado em títulos do Tesouro. Esse é um sólido matrimônio, em que os cônjuges podem até brigar, mas não renegam a aliança mutuamente conveniente. Enquanto isso, a China repete a proposta da Inglaterra vitoriana para a periferia mundial: fonte de matérias-primas e alimentos, a periferia mundial é, progressivamente, endividada com os bancos chineses e seu espaço econômico é ocupado por filiais da China. A Revolução Meiji, que modernizou e industrializou o Japão, está em plena marcha na China, que procura ser a campeã mundial em ciência e tecnologia. A estratégia da China combina as chaves do sucesso da Inglaterra vitoriana com a prioridade científico-tecnológica japonesa.
Que a China faça o que quiser, porém o Brasil não deve se converter na "bola da vez" da periferia chinesa. País tropical, com enormes reservas de terra agriculturável, água e fontes de energia fóssil e hidrelétrica, imagine-se a prioridade estratégica para o planejamento chinês em sua marcha pela periferia.
O discurso da globalização, a fantasia da "integração competitiva", a ilusão de ser "celeiro do mundo" com brasileiros ainda famintos, e a atrofia da soberania nacional podem vir a ser um discurso de absorção da proposta neocolonizadora da China.
Leio, nas palavras da presidente, uma percepção do risco do "conto do vigário" chinês. Temo os vendilhões da pátria, entregando energia e alimentos para o neo-sonho imperial.
Carlos Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Artigo: Jovens negros são as maiores vítimas da violência.

A violência é hoje um flagelo na juventude brasileira. Nenhuma causa mata mais do que ela na faixa etária de 15 a 24 anos, em que 39,7% dos óbitos se deram por homicídio.


Mas ela fere ainda mais fundo a população negra, que, segundo o Mapa da Violência 4, divulgado este ano, é a mais vulnerável à violência.
A cada branco que morreu em 2008, morreram, proporcionalmente, mais de dois negros, diz o estudo, que tem eco no relatório do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais, da UFRJ, que também indica que a violência em nosso país apresenta um nítido componente de cor ou raça. O Mapa da Violência aponta ainda que este quadro só tende a se agravar, já que, de 2002 a 2008, caiu em 30% o número de mortes entre jovens brancos, enquanto entre jovens negros subiu 13%.
A reversão desse quadro em que jovens negros estão muito mais sujeitos à morte violenta do que qualquer brasileiro de outro segmento só se dará se nós, legisladores e executivos de políticas públicas, nos debruçarmos sobre essa realidade em busca de soluções que garantam segurança para todos, sem distinção. A passagem do Dia da Consciência Negra, comemorado ontem, oferece boa oportunidade para pensarmos em políticas públicas que tirem o quanto antes essa população da situação de risco extremo em que se encontra.
Por isso, por minha iniciativa, a Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados vai realizar, dia 29, audiência pública para que deputados tenham chance de ouvir representantes do movimento negro e da Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial sobre a violência contra jovens negros. Queremos, com esse debate, encontrar formas de aperfeiçoar o aparato legal de defesa dessa população, que, nos últimos anos, tem ganho do Governo Federal atenção especial no esforço de vencer a discriminação social da qual tem sido vítima historicamente em nosso país.
Alessandro Molon é deputado federal (PT-RJ)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Os Indiferentes

("Texto retirado do livro Convite à Leitura de Gramsci")
Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.
A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.
A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.
A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.
Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.
Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes. ( Antonio Gramsci, 11 de fevereiro de 1917). 

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A força do Eu Te amo


A cada dia que passa, consigo não só perceber, mais sentir a falta que me faz.

Seus doces lábios sua doce voz que me alegrava me alimentava, hoje me faz uma falta tremenda.  A frase do “Eu Te Amo” tem a força de uma prece, quem ouve nunca mais esquece. Não pense que são mera sete letras, silabas sem sentido. Pode até pensar, que nem me importo. Pois, para mim pode estar sendo, muito pior.O fato do “morra sozinho”, pode ser mais doloroso que imagina.

Há momentos difíceis e bons tempos, mas o tempo  que a encontrei foi o melhor da minha vida, por que o seu amor é único é diferente de qualquer outro. Com você me sinto-me bem. O que quer que eu diga além do “EU TE AMO”...

Aprendi que “os amores da minha da minha vida, daqui até a eternidade”, são os mais belos e puros, porém  não poderão se unir, ( pelo menos por um tempo).Minha covardia me enoja, mas não se compara com a beleza de ouvir “Papai” me sustenta a falta que você me faz.

Filho estou te vendo dia e noite, saibas que por ti suportei muito, e suportarei muito mais, ...Um dia saberá...
Filho eu te amo tanto, o meu sofrimento não será em vão. Este “vento” que assopra para tua vida cessará e um novo tempo virá. Após a tempestade sempre vem a bonança, o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem ao amanhecer.

Por você faço o impossível. Ainda acredito no nosso amor. Um dia virá o nosso tempo, se assim Deus desejar.

AMO VOCÊS.

Rodrigo Souza